sábado, 20 de junho de 2009



21 de junho de 2009
N° 16007 - MOACYR SCLIAR


O senhor inverno

Se as estações do ano correspondessem a figuras humanas, poderíamos imaginar o verão como um garoto alegre, travesso, sempre de pés descalços, pronto a mergulhar num rio ou a jogar futebol; a primavera como uma adolescente bela e meiga, de olhos sonhadores, entoando suaves canções. O outono?

Um homem de meia-idade, um poeta talvez, sempre a caminhar por bosques e sempre meditando sobre a vida. E o inverno? Bem, aí depende. O inverno divide opiniões; porque há quem não suporte o frio assim como existem aqueles que abominam o calor.

Aliás, é certo que a Batalha Final será travada não entre aqueles que atacam ou defendem o terceiro mandato para Lula, nem entre as forças do Bem e seus adversários do Mal; a Batalha Final será travada entre aqueles que detestam o inverno e aqueles que o amam.

Nessa linha de raciocínio, Henry David Thoreau, o pensador americano que venerava a natureza e a celebrou em várias obras, dizia que, para algumas pessoas, o inverno seria um rude e prepotente tirano, mas que ele preferia vê-lo como um monarca benévolo e gentil.

Rei talvez seja um pouco de exagero, mas podemos, sim, falar de um Senhor Inverno, um cavalheiro de idade que nos visita todos os anos. Veste-se bem, ele, com elegância discreta: sobretudo, manta, boné ou chapéu. Usa barba, obviamente, uma barba bem cuidada. Sua voz é grave, voz de barítono.

É um homem culto: nas longas noites da estação fria, sua diversão principal é ler (Shakespeare, Machado de Assis) e ouvir música (erudita: Bach, Mozart), enquanto saboreia um cálice de vinho. Ah, sim, o Senhor Inverno é gourmet; gosta de comer bem e frequenta bons restaurantes. Mas prefere ficar em casa, sentado diante da lareira, muitas vezes olhando as chamas que dançam alegremente.

É triste, o Senhor Inverno? Talvez o seja: a falta de luz solar exerce esse efeito sobre a química do nosso organismo, causando aquilo que os americanos chamam de winter blues, a tristeza do inverno. Isso, para o Senhor Inverno, não chega a ser problema, ao contrário: essa tristeza superior, espiritual, é para ele o ponto de partida para uma meditação sobre a existência, para uma busca de respostas às tradicionais questões com as quais muitas vezes somos confrontados: por que estamos aqui?

Qual o sentido da vida?

Se esse debate interior fica muito inquietante, o Senhor Inverno tem alternativas: um bom DVD, por exemplo. Ou um chá acompanhado de torradas.

Finalmente, é bom dizer que o Senhor Inverno é muito hospitaleiro: na casa dele, sempre seremos bem recebidos. E lá encontraremos abrigo para o cortante vento que, aqui no Sul, muitas vezes arranca lágrimas de nossos olhos.

A propósito da comemoração do Bloomsday, que no dia 16 de junho de cada ano homenageia a obra Ulysses, de James Joyce, em vários lugares do mundo, escreve-me a Moina F. Rech, de Santa Cruz, para dizer que na Livraria e Cafeteria Iluminura, daquela cidade, a tradição é mantida, inclusive com uma torta especial dedicada aos dois personagens principais do livro: a parte que lembra Bloom (o homem) é recheada com abacaxi, a que evoca Molly (a mulher), com geléia de amora.

Alguma insinuação nisso, Moina? Parabéns a você e a Santa Cruz pela realização. Também agradeço as mensagens de Mauro Duarte, do prof. José Fernando Piva Lobato, de Alaíse S. da Silveira, de Renon Vieira, de Adriano Lamego, de Camilla Casa Nova, de Jorge Ritter, de Alexandre Cohen, de Valdo Barcellos, e de Carlos Stein, homônimo do escritor (sou um cara afortunado: tenho dois amigos chamados Carlos Stein).

O Carlos André Moreira, que brilha no jornalismo cultural aqui de ZH, estreia na ficção com o recém-lançado Tudo o que Fizemos, mais uma amostra de seu talento – e mais uma voz na ascendente ficção gaúcha.

A dra. Helena Ibañez e o dr. Cesar de Almeida Martins Costa convidam para a palestra sobre o Fausto de Goethe, que será proferida pelo poeta e acadêmico Carlos Nejar, com debates pela psiquiatra e psicanalista dra. Marlene Araujo e pelo Doutor em Direito, Gerson Branco. Dia 2 de julho, às 20h, na Travessa Acylino de Carvalho 21, 4º andar.

Nenhum comentário: